terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Quem não tem medo de ficar sozinho?

Aprendi a ficar só.
Não é fácil.
Acredito que todo momento de solidão lembra o parto. Aquela hora em que a gente vai sair do conforto para a luz. Aquela hora em que a gente vai cortar o cordão e começar a fazer força para engolir. Aquela hora em que a fragilidade de ser torna-se a única companhia constante.
É necessário. Porque a gente precisa de luz para ver. Porque a gente precisa estar solto para aprender a andar. Porque a gente precisa escolher o que engole, o que vomita, o que processa, o que elimina. Porque a gente precisa de espaço para crescer. Porque, na real, a fragilidade sempre esteve e sempre está - precisamos estar conscientes disso.
Mas dói. Aconchego e colo é muito melhor que tudo isso aí.
Dói mesmo?
Tenho ficado muito em silêncio comigo. Sinto ser apenas um silêncio exterior. Com o tempo, as coisas de dentro deixam de apenas ecoar e passam a emitir. Minha cabeça fala muito. Mas meu coração fala mais alto. Meu estômago fala uma língua ainda confusa. Minha pele é muito engraçada. Minhas mãos continuam nervosas - acho que elas não gostam de ficar sozinhas, talvez por isso tenham vindo em par...
Somente no tempo que tenho comigo sou capaz de ouvir esses sons. E toda essa música, que sou eu, é necessária para minha harmonia, é o impulso do meu ritmo, é a melodia que me dá paz.
Não, ficar só não dói. Ficar só dá medo.
Por mais que eu me entenda e me respeite cada vez mais, continuo com medo de ficar sozinha. Sim, não é mais de estar - o que antes era fonte de agonia, mas de ficar.
E por quê? Ora, veja bem. Por que a gente dança aos pares e aos grupos? Por que a gente dança na sala e não no quarto? Por que a gente faz festa?
Porque nós, que graça, somos música e não matemática. Porque nós multiplicamos ao dividir. Porque tirar de si é somar a si. E sem os outros elementos, certa hora, tudo fica muito igual.
Treine seus passos. E vem brilhar na festa.

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 07.02.11)

1 comentários:

Anônimo disse...

Excelente texto!