Outro dia, espalhando ao ar comentários levemente jocosos acerca de um amigo que se encontra no estado de paixão eufórica do tipo só-fala-do-objeto-de-afeição, ouvi de um dos interlocutores:
- Ele namora pelo mesmo motivo que todos nós namoramos: para ser feliz.
Não tive resposta na hora, mas no fundo do meu peito não concordei. Assustei-me. Será que eu namoro para ser triste? Não é o caso. Mas lá no subconsciente uma vozinha sussurrou: não é isso! E eu guardei a assertiva para algum dos diálogo entre meus eus que sempre travo durante as caminhadas aparentemente a sós.
Nesta semana, após um weekend de paisagens naturais de tirar o fôlego e uma leitura de sacudir estruturas, voltei a sentença.
A gente se relaciona erótico-afetivamente para ser feliz?
Sim! E é por isso que a maioria dos relacionamentos está fadado ao fracasso.
1) Para começo de conversa: se você coloca suas expectativas de felicidade fora de si mesmo, isso vai dar errado.
A conquista do emprego dos sonhos, a compra do carro novo, um grande encontro, o nascimento de um filho... isso e tantas outras experiências são estopim de alegria. Mas, fatalmente, mais dia menos dia, a rotina vai acabar com o glamour do trabalho, alguém vai deixar de presente um arranhão bem na porta do seu carro, seu grande amor vai pisar na bola e seu filho vai contrariar aquele valor que lhe era mais caro.
Isso acabaria com sua felicidade?
Em um dia tradicional de verão no nordeste, o sol lasca e a chuva cai. Duas pessoas podem passar pela mesma experiência e reagir de forma diametralmente oposta. Estando sob a areia, contemplando o mar e de surpresa tomar um estúpido banho de chuva, duas visões. Um paulista fecharia a cara e pensaria: agora estragou meu blackberry(!), droga de nordeste atrasado em que nada se pode planejar. Um cearense daria um risinho com os olhos, viraria para o vizinho e soltaria: ê cumpadi, me empresta aí uma lasca desse teu sabonete porque esta aí tá de lavar até a alma.
A felicidade verdadeira não está em nada que venha de fora. Nem da maravilhosa vivência de amar e deixar-se amar por alguém.
Portanto, tratemos de nos fazer feliz a nós mesmo e de tirar este puta peso das costas da relação amorosa.
2) Quando colocamos no outro a causa de nossa felicidade, fatalmente colocaremos a da nossa tristeza.
E quando o chefe é um fdp para quem você não pode responder; ou seu melhor amigo fez uma piada que o ofendeu, mas você não disse nada para não caçar confusão; ou você perdeu algum ente querido; ou está angustiado por algo que nem sabe identificar... a culpa acaba no ser amado.
Afinal, que amor é este que não consegue ser maior que todas as dores da vida?
Daí você corre o risco de se perguntar se aquilo é mesmo o que você procura, porque lá no fundo você sabe que se relaciona para ser feliz e, portanto, se não está feliz, não deve ser aquela pessoa para quem você deveria dedicar-se.
Quanta bobagem! Dê a César o que é de César. Lembrando: o responsável por sua felicidade é você!
3) E, enfim, nada na vida é só felicidade.
E aí reside o perigo final de incorrer na inocente, ainda que vil, crença de que nos relacionamos apenas para ser feliz.
Meus pais estão juntos há 33 anos. Por volta dos 25 anos de casados, meu pai passou por um ano de depressão barra pesada. Foi muito difícil para todos nós que o amávamos e, creio, especialmente para minha mãe. Já pensou na loucura que seria ela virar as costas para ele e dizer: eu me relaciono para ser feliz, isto aqui está só tristeza e a culpa é sua, vou me embora? Ou do meu pai soltar: nós nos relacionamos para ser feliz, eu a estou fazendo triste, deixe-me sozinho?
Quando a gente tem alguém para dividir a vida, as contingências não passam disso e tudo anda melhor. Quando a gente está feliz, divide e o sentimento aumenta. Quando a gente está triste, divide também e ele arrefece. Mas que porcaria de parceiro seria este que só vai querer dividir a parte boa?
Não, meus caros, a gente não se relaciona para ser feliz. A gente se relaciona para dividir.
A gente se relaciona para viver a experiência de tocar uma outra alma com tudo que ela tem e para mostrar a nossa alma com tudo que temos. A gente se relaciona para sair desta ilusão de que somos ou deveríamos ser perfeitos. A gente se relaciona para aprender. A gente se relaciona para melhorar.
A gente se relaciona não porque é impossível ser feliz sozinho. Mas porque é muito mais gostoso ser feliz junto. E menos penoso passar por tudo que não é feliz quando se tem alguém de confiança ao lado.
(Publicado em eufalocomestranhos, dia 15.07.10)
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1 comentários:
só um comentário: puta merda!
minha "alma feminina" foi totalmente tocada agora...
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