ouvi voltando do banheiro ao balcão.
"Você concorda?", alguém aproveitou meu retorno em meio ao tiroteio para me alvejar.
"Sim, eu concordo", respondi com receio de estar sendo hipócrita e me pus a pensar.
Concordo?
Muito. E, refletindo sobre o tema, enfim entendi no que acredito.
Acredito que somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra é sim hipocrisia. Agora imaginar que uma coisa é a outra trata-se de uma grande tolice.
Após intenso diálogo com meus botões, conclui: o sexo é uma prática física, que em seu desdobramento espiritual pode ser horizontal ou vertical.
O horizontal é aquele que nos faz entender que somos bichos. Aceitemos ou não.
Todos, homens e mulheres, sentimos tesão.
E simplesmente não acontece de experienciarmos esta sensação por só uma pessoa a vida inteira. Ocorreria se as pessoas fossem muito desinteressantes ou nós fossemos muito limitados. Mas, em geral, nenhum dos dois confirma-se realidade. Ainda bem.
É por isso que nosso interesse e nossa atração vai correndo o horizonte de possibilidades que a vida, especialmente a moderna, nos dá.
O nosso ideal familiar e monogâmico pode abarcar, pode cegar, pode se debater contra o fato. Porém nada o fará mudar. O novo gera interesse, e esta curiosidade pode acarretar atração, e tal atração pode virar ação.
No fundo, aliás, no raso, todos passaremos pela vida experimentando ou desejando experimentar a "traição"*.
*estas aspas foram empregadas no sentido "barzinho", não gramatical.
A prática sexual espiritualmente vertical é aquela que decorre da escolha.
Lembremos que escolher caminha par em passo com renunciar. Se eu escolhi você, eu renunciei aos outros. E, acredite, mesmo que continuemos a viver experiências sexuais horizontais e paralelas, teremos renunciado ao que mais importa: a entrega amorosa.
Sexo é como pizza: mesmo ruim... Mas o objetivo de um adulto saudável não é esse, creio. Como em tudo mais, a maturidade vai fazendo com que a troca de quantidade por qualidade seja cada vez mais tranquila.
Com o passar das noites, a gente acaba percebendo institivamente, intuitivamente, vivazmente, que há outro fim para o coito que não o esporro. Orgasmo não é gozo.
A cumplicidade, a intimidade, a verdade. Olhar nos olhos, sorrir no riso. Os sonhos que se sonha juntos. A realidade que não é a fantasia de perfeição, mas a paz da satisfação escolhida e conquistada.
É neste momento que se perde a distinção entre corpo e alma, entre físico e espiritualidade, entre eu e você.
Se ser fiel ao amor é compartilhar tal cumplicidade, intimidade e verdade apenas com uma pessoa, sim, concordo que isso é tudo que importa.
Se há a segurança de entregar o corpo sem tocar a alma, e se há uma percepção de que vale a pena brincar, sim, concordo que isso não faz diferença nenhuma.
As questões que permanecem são aquelas do início da argumentação. Somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E imaginar que temos o controle sobre a tênue (talvez imaginária) linha que atravessa entre sexo e paixão, entre matéria e espírito, é megalomania.
Estamos vivos e o corpo morre.
O sentido é evoluir e o espírito é eterno.
A gente não tem controle de nada.
Mas a gente pode tudo.
Para onde você iria esta noite se pudesse escolher?
(Publicado em eufalocomestranhos, dia 03.11.10)
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário