quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"O importante é a fidelidade do amor, não a fidelidade do corpo",

ouvi voltando do banheiro ao balcão.
"Você concorda?", alguém aproveitou meu retorno em meio ao tiroteio para me alvejar.
"Sim, eu concordo", respondi com receio de estar sendo hipócrita e me pus a pensar.
Concordo?

Muito. E, refletindo sobre o tema, enfim entendi no que acredito.

Acredito que somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra é sim hipocrisia. Agora imaginar que uma coisa é a outra trata-se de uma grande tolice.

Após intenso diálogo com meus botões, conclui: o sexo é uma prática física, que em seu desdobramento espiritual pode ser horizontal ou vertical.

O horizontal é aquele que nos faz entender que somos bichos. Aceitemos ou não.
Todos, homens e mulheres, sentimos tesão.
E simplesmente não acontece de experienciarmos esta sensação por só uma pessoa a vida inteira. Ocorreria se as pessoas fossem muito desinteressantes ou nós fossemos muito limitados. Mas, em geral, nenhum dos dois confirma-se realidade. Ainda bem.
É por isso que nosso interesse e nossa atração vai correndo o horizonte de possibilidades que a vida, especialmente a moderna, nos dá.
O nosso ideal familiar e monogâmico pode abarcar, pode cegar, pode se debater contra o fato. Porém nada o fará mudar. O novo gera interesse, e esta curiosidade pode acarretar atração, e tal atração pode virar ação.
No fundo, aliás, no raso, todos passaremos pela vida experimentando ou desejando experimentar a "traição"*.
*estas aspas foram empregadas no sentido "barzinho", não gramatical.

A prática sexual espiritualmente vertical é aquela que decorre da escolha.
Lembremos que escolher caminha par em passo com renunciar. Se eu escolhi você, eu renunciei aos outros. E, acredite, mesmo que continuemos a viver experiências sexuais horizontais e paralelas, teremos renunciado ao que mais importa: a entrega amorosa.
Sexo é como pizza: mesmo ruim... Mas o objetivo de um adulto saudável não é esse, creio. Como em tudo mais, a maturidade vai fazendo com que a troca de quantidade por qualidade seja cada vez mais tranquila.
Com o passar das noites, a gente acaba percebendo institivamente, intuitivamente, vivazmente, que há outro fim para o coito que não o esporro. Orgasmo não é gozo.
A cumplicidade, a intimidade, a verdade. Olhar nos olhos, sorrir no riso. Os sonhos que se sonha juntos. A realidade que não é a fantasia de perfeição, mas a paz da satisfação escolhida e conquistada.
É neste momento que se perde a distinção entre corpo e alma, entre físico e espiritualidade, entre eu e você.

Se ser fiel ao amor é compartilhar tal cumplicidade, intimidade e verdade apenas com uma pessoa, sim, concordo que isso é tudo que importa.
Se há a segurança de entregar o corpo sem tocar a alma, e se há uma percepção de que vale a pena brincar, sim, concordo que isso não faz diferença nenhuma.

As questões que permanecem são aquelas do início da argumentação. Somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E imaginar que temos o controle sobre a tênue (talvez imaginária) linha que atravessa entre sexo e paixão, entre matéria e espírito, é megalomania.

Estamos vivos e o corpo morre.
O sentido é evoluir e o espírito é eterno.

A gente não tem controle de nada.
Mas a gente pode tudo.

Para onde você iria esta noite se pudesse escolher?

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 03.11.10)

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