Era 2113 quando os postais voltaram à moda.
Com o desaparecimento do papel, claro, eles também sumiram.
Contam que o primeiro a sair de circulação foi o jornal. Apostavam alguns que seria impossível todos trocarem o gosto de ter os dedos sujos de tinta à mesa do café pela leitura iluminada no computador do escritório. Em verdade, o coletivo mostrou-se tão individualista e apressado como se anunciava: aceitaram o jornal personalité, mais um serviço voltado para o multifuncional celular.
Quem lê tanta notícia, afinal?
As revistas? Folheáveis por senhas digitadas em qualquer mídia conectada ao mundo virtual.
As cartas? Como escrever a mão quem se alfabetizou digitando?
Sobraram embalagens, e só.
O plástico, enfim, também sumiu.
Mas foi em 2113 que Jonas, trend-setter profissional, encontrou em antiquário paulistano uma coleção de cartões-postais.
Perdeu-se o papel, o plástico, mas em tempo algum o saudosismo. Antiquários não sumiram, nem pessoas como Jonas deixaram de nascer.
- O que é isso? - perguntou ao senhor de 112 anos que sorria detrás do balcão.
- Cartões-postais, meu filho.
- E para que servem?
- Escrevia-se breves cartas no verso deles. Veja - disse virando o papel. Aqui colocava-se o endereço do destinatário e aqui uma mensagem rápida. Era para mandar um alô e fazer inveja aos amigos durante as viagens - afirmou com certo brilho lacrimejante no olhar.
- E já existiu lugar assim? O céu já foi desta cor? Isso era feito por aquele programa antigo, né? Photoshop...
- Não, filho. O céu já foi desta cor. O mar também. A areia. O mundo não era desta cor que você vê lá fora agora.
- Quanto custa a coleção?
- Filho, isto não tem preço.
- E por que o senhor expõe?
- Gostaria que alguém comprasse a idéia. Já no começo do século passado, na época que nasci, eles não eram assim tão usados. Eu, por acaso, sempre gostei, sempre comprei. E sempre tive saudades de ver palavras de amizades no verso de belas imagens.
Jonas passou a noite pensando nas palavras do velho. Tinha razão. Era uma boa idéia. Ótima talvez.
No raiar do novo dia, já sabia o que fazer. Rascunhou um projeto e encaminhou para os amigos fotógrafos-viajantes. Assim nasceram os postais de skyline.
Em 2113, uma das grandes diversões das ceias de natal foi juntar a família para mostrar postais e verificar o conhecimento sobre as cidades do mundo.
Haviam ficado todas tão parecidas. Divertido confundir Istambul com Porto Alegre, Joanesburgo com Pequim, Paris e Nova Orleans.
Para 2114, Jonas decidiu ir um pouco mais. Agora seriam postais do passado. Pesquisou em museus virtuais, chorou, comprou direitos e publicou.
Aquele natal não foi tão divertido. Uma angústia tomou conta do peito daqueles que receberam imagens de outros tempos. Parece que foi ontem. E perguntou-se até quando haveria amanhã.
Nunca se viu beleza mais triste.
(Postado em Colecionadoras, setembro de 2009)
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