quarta-feira, 4 de julho de 2012

Despedida estranha

Acredito que, para quem está realmente presente, um relacionamento não traz grandes surpresas - exceto as catástrofes acima de qualquer imaginação ou coisa que o valha. A gente pode até não gostar do desenrolar dos fatos, mas ser surpreendido por eles é muito difícil.
Não acredito em "mas estava tudo bem, como isto foi acontecer?" ou "cheguei a pensar que era o fim e, de uma hora para a outra, ele mudou". Desculpe, mas não acredito.

Você não suspira a cada lembrança e passa o dia trocando mensagens doces e apimentadas para acordar amanhã pensando em partir. E também não fica três meses dormindo na mesma cama sem fazer sexo, dormindo de bundinha ou até evitando deitar no mesmo horário, se anda tudo as mil maravilhas. Se você está presente dentro da sua relação, você, melhor que ninguém, sabe em que estado ela se encontra.


Não, as relações não são todas iguais. Tem gente que é movido a paixão, como eu. E tem gente que se sente mais confortável com a rotina, confia no tempo. Tem gente que dá tudo por um instante mágico em que os feijões são lançados ao solo e um mundo encantado surge acima das nuvens. E tem gente que dá tudo pelo prazer de olhar para traz e ver o quanto aquela semente cresceu, o quanto são fortes as raízes e frondozos os galhos. Toda essa gente ama, cada uma a seu modo.


Vivemos os tempos de hoje, com suas vantagens e desvantagens, quer gostemos ou não. E acho mesmo uma pena que as pessoas e os sentimentos tenham se tornado tão consumíveis e descartáveis quanto os objetos. Mas confesso um alívio em me saber livre (espero que também consciente) para não permanecer onde não há amor, entrega, presença, vida. "Onde não houver amor, não se demore", disse alguém com quem concordo.

(Publicado em eufalocomestranhos em 04 jul 2012)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pensando nela

É impossível ficar tranqüilo em meio à tempestade.

O céu é noite ainda que seja dia. O vento empurra com força e sem direção. A água toma o lugar do ar, e impede a visão. As raízes saem do chão. Os pássaros se escondem. As borboletas morrem. Tudo turva.

Mas ela passa. Tudo passa. E na hora que ela começar a dar sinais de fim, observe.

Observe que o sol continua lá no alto. Observe que acima das nuvens se formam alguns arco-íris. Observe que o vento intenso cedeu espaço para uma brisa quase gelada que a mantém desperta. Observe que a água agora pousa no solo – cheiroso, úmido e fértil. Observe que as árvores caídas já não tinham mais força e agora você tem um amplo campo para voltar a plantar. Observe que os pássaros voltaram trazendo sementes de longe no bico. Observe que lagartas fazem seu trabalho e, não falta muito, voltaram a enfeitar o jardim. Tudo é novo, sobre a única coisa que restou inteira: a base firme.

(Publicado em dacolecionadora, dia 28.04.11)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Quem não tem medo de ficar sozinho?

Aprendi a ficar só.
Não é fácil.
Acredito que todo momento de solidão lembra o parto. Aquela hora em que a gente vai sair do conforto para a luz. Aquela hora em que a gente vai cortar o cordão e começar a fazer força para engolir. Aquela hora em que a fragilidade de ser torna-se a única companhia constante.
É necessário. Porque a gente precisa de luz para ver. Porque a gente precisa estar solto para aprender a andar. Porque a gente precisa escolher o que engole, o que vomita, o que processa, o que elimina. Porque a gente precisa de espaço para crescer. Porque, na real, a fragilidade sempre esteve e sempre está - precisamos estar conscientes disso.
Mas dói. Aconchego e colo é muito melhor que tudo isso aí.
Dói mesmo?
Tenho ficado muito em silêncio comigo. Sinto ser apenas um silêncio exterior. Com o tempo, as coisas de dentro deixam de apenas ecoar e passam a emitir. Minha cabeça fala muito. Mas meu coração fala mais alto. Meu estômago fala uma língua ainda confusa. Minha pele é muito engraçada. Minhas mãos continuam nervosas - acho que elas não gostam de ficar sozinhas, talvez por isso tenham vindo em par...
Somente no tempo que tenho comigo sou capaz de ouvir esses sons. E toda essa música, que sou eu, é necessária para minha harmonia, é o impulso do meu ritmo, é a melodia que me dá paz.
Não, ficar só não dói. Ficar só dá medo.
Por mais que eu me entenda e me respeite cada vez mais, continuo com medo de ficar sozinha. Sim, não é mais de estar - o que antes era fonte de agonia, mas de ficar.
E por quê? Ora, veja bem. Por que a gente dança aos pares e aos grupos? Por que a gente dança na sala e não no quarto? Por que a gente faz festa?
Porque nós, que graça, somos música e não matemática. Porque nós multiplicamos ao dividir. Porque tirar de si é somar a si. E sem os outros elementos, certa hora, tudo fica muito igual.
Treine seus passos. E vem brilhar na festa.

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 07.02.11)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Para ser feliz?

Outro dia, espalhando ao ar comentários levemente jocosos acerca de um amigo que se encontra no estado de paixão eufórica do tipo só-fala-do-objeto-de-afeição, ouvi de um dos interlocutores:
- Ele namora pelo mesmo motivo que todos nós namoramos: para ser feliz.
Não tive resposta na hora, mas no fundo do meu peito não concordei. Assustei-me. Será que eu namoro para ser triste? Não é o caso. Mas lá no subconsciente uma vozinha sussurrou: não é isso! E eu guardei a assertiva para algum dos diálogo entre meus eus que sempre travo durante as caminhadas aparentemente a sós.
Nesta semana, após um weekend de paisagens naturais de tirar o fôlego e uma leitura de sacudir estruturas, voltei a sentença.

A gente se relaciona erótico-afetivamente para ser feliz?
Sim! E é por isso que a maioria dos relacionamentos está fadado ao fracasso.

1) Para começo de conversa: se você coloca suas expectativas de felicidade fora de si mesmo, isso vai dar errado.
A conquista do emprego dos sonhos, a compra do carro novo, um grande encontro, o nascimento de um filho... isso e tantas outras experiências são estopim de alegria. Mas, fatalmente, mais dia menos dia, a rotina vai acabar com o glamour do trabalho, alguém vai deixar de presente um arranhão bem na porta do seu carro, seu grande amor vai pisar na bola e seu filho vai contrariar aquele valor que lhe era mais caro.
Isso acabaria com sua felicidade?
Em um dia tradicional de verão no nordeste, o sol lasca e a chuva cai. Duas pessoas podem passar pela mesma experiência e reagir de forma diametralmente oposta. Estando sob a areia, contemplando o mar e de surpresa tomar um estúpido banho de chuva, duas visões. Um paulista fecharia a cara e pensaria: agora estragou meu blackberry(!), droga de nordeste atrasado em que nada se pode planejar. Um cearense daria um risinho com os olhos, viraria para o vizinho e soltaria: ê cumpadi, me empresta aí uma lasca desse teu sabonete porque esta aí tá de lavar até a alma.
A felicidade verdadeira não está em nada que venha de fora. Nem da maravilhosa vivência de amar e deixar-se amar por alguém.
Portanto, tratemos de nos fazer feliz a nós mesmo e de tirar este puta peso das costas da relação amorosa.

2) Quando colocamos no outro a causa de nossa felicidade, fatalmente colocaremos a da nossa tristeza.
E quando o chefe é um fdp para quem você não pode responder; ou seu melhor amigo fez uma piada que o ofendeu, mas você não disse nada para não caçar confusão; ou você perdeu algum ente querido; ou está angustiado por algo que nem sabe identificar... a culpa acaba no ser amado.
Afinal, que amor é este que não consegue ser maior que todas as dores da vida?
Daí você corre o risco de se perguntar se aquilo é mesmo o que você procura, porque lá no fundo você sabe que se relaciona para ser feliz e, portanto, se não está feliz, não deve ser aquela pessoa para quem você deveria dedicar-se.
Quanta bobagem! Dê a César o que é de César. Lembrando: o responsável por sua felicidade é você!

3) E, enfim, nada na vida é só felicidade.
E aí reside o perigo final de incorrer na inocente, ainda que vil, crença de que nos relacionamos apenas para ser feliz.
Meus pais estão juntos há 33 anos. Por volta dos 25 anos de casados, meu pai passou por um ano de depressão barra pesada. Foi muito difícil para todos nós que o amávamos e, creio, especialmente para minha mãe. Já pensou na loucura que seria ela virar as costas para ele e dizer: eu me relaciono para ser feliz, isto aqui está só tristeza e a culpa é sua, vou me embora? Ou do meu pai soltar: nós nos relacionamos para ser feliz, eu a estou fazendo triste, deixe-me sozinho?
Quando a gente tem alguém para dividir a vida, as contingências não passam disso e tudo anda melhor. Quando a gente está feliz, divide e o sentimento aumenta. Quando a gente está triste, divide também e ele arrefece. Mas que porcaria de parceiro seria este que só vai querer dividir a parte boa?
Não, meus caros, a gente não se relaciona para ser feliz. A gente se relaciona para dividir.

A gente se relaciona para viver a experiência de tocar uma outra alma com tudo que ela tem e para mostrar a nossa alma com tudo que temos. A gente se relaciona para sair desta ilusão de que somos ou deveríamos ser perfeitos. A gente se relaciona para aprender. A gente se relaciona para melhorar.

A gente se relaciona não porque é impossível ser feliz sozinho. Mas porque é muito mais gostoso ser feliz junto. E menos penoso passar por tudo que não é feliz quando se tem alguém de confiança ao lado.

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 15.07.10)

"O importante é a fidelidade do amor, não a fidelidade do corpo",

ouvi voltando do banheiro ao balcão.
"Você concorda?", alguém aproveitou meu retorno em meio ao tiroteio para me alvejar.
"Sim, eu concordo", respondi com receio de estar sendo hipócrita e me pus a pensar.
Concordo?

Muito. E, refletindo sobre o tema, enfim entendi no que acredito.

Acredito que somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra é sim hipocrisia. Agora imaginar que uma coisa é a outra trata-se de uma grande tolice.

Após intenso diálogo com meus botões, conclui: o sexo é uma prática física, que em seu desdobramento espiritual pode ser horizontal ou vertical.

O horizontal é aquele que nos faz entender que somos bichos. Aceitemos ou não.
Todos, homens e mulheres, sentimos tesão.
E simplesmente não acontece de experienciarmos esta sensação por só uma pessoa a vida inteira. Ocorreria se as pessoas fossem muito desinteressantes ou nós fossemos muito limitados. Mas, em geral, nenhum dos dois confirma-se realidade. Ainda bem.
É por isso que nosso interesse e nossa atração vai correndo o horizonte de possibilidades que a vida, especialmente a moderna, nos dá.
O nosso ideal familiar e monogâmico pode abarcar, pode cegar, pode se debater contra o fato. Porém nada o fará mudar. O novo gera interesse, e esta curiosidade pode acarretar atração, e tal atração pode virar ação.
No fundo, aliás, no raso, todos passaremos pela vida experimentando ou desejando experimentar a "traição"*.
*estas aspas foram empregadas no sentido "barzinho", não gramatical.

A prática sexual espiritualmente vertical é aquela que decorre da escolha.
Lembremos que escolher caminha par em passo com renunciar. Se eu escolhi você, eu renunciei aos outros. E, acredite, mesmo que continuemos a viver experiências sexuais horizontais e paralelas, teremos renunciado ao que mais importa: a entrega amorosa.
Sexo é como pizza: mesmo ruim... Mas o objetivo de um adulto saudável não é esse, creio. Como em tudo mais, a maturidade vai fazendo com que a troca de quantidade por qualidade seja cada vez mais tranquila.
Com o passar das noites, a gente acaba percebendo institivamente, intuitivamente, vivazmente, que há outro fim para o coito que não o esporro. Orgasmo não é gozo.
A cumplicidade, a intimidade, a verdade. Olhar nos olhos, sorrir no riso. Os sonhos que se sonha juntos. A realidade que não é a fantasia de perfeição, mas a paz da satisfação escolhida e conquistada.
É neste momento que se perde a distinção entre corpo e alma, entre físico e espiritualidade, entre eu e você.

Se ser fiel ao amor é compartilhar tal cumplicidade, intimidade e verdade apenas com uma pessoa, sim, concordo que isso é tudo que importa.
Se há a segurança de entregar o corpo sem tocar a alma, e se há uma percepção de que vale a pena brincar, sim, concordo que isso não faz diferença nenhuma.

As questões que permanecem são aquelas do início da argumentação. Somos corpo e alma. Ambos fazem sexo, ambos se apaixonam, ambos amam. E imaginar que temos o controle sobre a tênue (talvez imaginária) linha que atravessa entre sexo e paixão, entre matéria e espírito, é megalomania.

Estamos vivos e o corpo morre.
O sentido é evoluir e o espírito é eterno.

A gente não tem controle de nada.
Mas a gente pode tudo.

Para onde você iria esta noite se pudesse escolher?

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 03.11.10)

Nos tempos da marotagem lenta

Hoje em dia, quem está solteiro sabe, parece que o negócio vai de rosca.

É que tem tanta opção...
E não falo só de pessoas interessantes disponíveis não. Falo das viagens, dos amigos, dos livros, das músicas, das festas, das comidas, das conversas e tudo mais que a maturidade nos leva a valorizar. É tanta coisa pra se ver numa vida só, que dá até peninha de fechar seu mundo num clima "my love, there´s only you in my life...".

Então parece que todo mundo anda por aí num esquema moonwalking: olha pra frente e escorrega pra trás.

Garante uns dois ou três rolinhos que é pra não se envolver de verdade com ninguém.
E tenta manter dois ou três dias de intervalo entre os contatos que é pra não se envolver de verdade com ninguém.
E vai pra cama o mais rápido possível pra ver se o corpo amortece logo o impacto que é sentir o peito. Isso também, claro, pra não se envolver de verdade com ninguém.
E joga no ar o tipo "sou independente", que é pro outro não pensar de maneira alguma que o encantador ser ali parado a sua frente está disponível. E, assim, todo mundo se protege do envolvimento verdadeiro com alguém.
E vai seguindo essa cartilha que dá preguiça de observar, de lembrar e, especialmente, de listar aqui.

Daí hoje, fofocando com um brother super querido, enfiei:
- E aí? Está namorando aquela menina do seu aniversário?
- Bem, estou me aproximando.
Adorei o verbo.

É isso! Está todo mundo se aproximando. E ninguém chega a lugar nenhum.

Foi um ano de separações e rupturas. De alguma forma, como resultado, foi um ano de muito crescimento individual.
Assim, me parece que criamos massas pesadas o suficiente para manter um tanto de coisa a nossa órbita. (E valem a pena todos os nossos satélites?)
Ficamos também a girar em outros círculos, atraídos. (Ficamos tontos?)
Translação e rotação, translação e rotação. É cada um no seu equilíbrio, e, ainda que desejemos parecer planetas independentes, em sistema, procuramos o impulso externo.

Acontece que hora ou outra há de chegar o impacto. Um astro cai do céu, altera o curso. E toda uma nova era se inicia.

Acontece que hora ou outra há de existir o impacto. Nova rota. E os corpos vão se separando pelo universo em expansão.

Pelo fim da inércia!
Se quer se aproximar, chega e queima a estratosfera.
Se quer ir, brilha anos-luz daqui.

(Publicado em eufalocomestranhos, dia 25.11.10)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Postais do Passado

Era 2113 quando os postais voltaram à moda.

Com o desaparecimento do papel, claro, eles também sumiram.

Contam que o primeiro a sair de circulação foi o jornal. Apostavam alguns que seria impossível todos trocarem o gosto de ter os dedos sujos de tinta à mesa do café pela leitura iluminada no computador do escritório. Em verdade, o coletivo mostrou-se tão individualista e apressado como se anunciava: aceitaram o jornal personalité, mais um serviço voltado para o multifuncional celular.
Quem lê tanta notícia, afinal?
As revistas? Folheáveis por senhas digitadas em qualquer mídia conectada ao mundo virtual.
As cartas? Como escrever a mão quem se alfabetizou digitando?
Sobraram embalagens, e só.
O plástico, enfim, também sumiu.

Mas foi em 2113 que Jonas, trend-setter profissional, encontrou em antiquário paulistano uma coleção de cartões-postais.
Perdeu-se o papel, o plástico, mas em tempo algum o saudosismo. Antiquários não sumiram, nem pessoas como Jonas deixaram de nascer.
- O que é isso? - perguntou ao senhor de 112 anos que sorria detrás do balcão.
- Cartões-postais, meu filho.
- E para que servem?
- Escrevia-se breves cartas no verso deles. Veja - disse virando o papel. Aqui colocava-se o endereço do destinatário e aqui uma mensagem rápida. Era para mandar um alô e fazer inveja aos amigos durante as viagens - afirmou com certo brilho lacrimejante no olhar.
- E já existiu lugar assim? O céu já foi desta cor? Isso era feito por aquele programa antigo, né? Photoshop...
- Não, filho. O céu já foi desta cor. O mar também. A areia. O mundo não era desta cor que você vê lá fora agora.
- Quanto custa a coleção?
- Filho, isto não tem preço.
- E por que o senhor expõe?
- Gostaria que alguém comprasse a idéia. Já no começo do século passado, na época que nasci, eles não eram assim tão usados. Eu, por acaso, sempre gostei, sempre comprei. E sempre tive saudades de ver palavras de amizades no verso de belas imagens.

Jonas passou a noite pensando nas palavras do velho. Tinha razão. Era uma boa idéia. Ótima talvez.
No raiar do novo dia, já sabia o que fazer. Rascunhou um projeto e encaminhou para os amigos fotógrafos-viajantes. Assim nasceram os postais de skyline.

Em 2113, uma das grandes diversões das ceias de natal foi juntar a família para mostrar postais e verificar o conhecimento sobre as cidades do mundo.
Haviam ficado todas tão parecidas. Divertido confundir Istambul com Porto Alegre, Joanesburgo com Pequim, Paris e Nova Orleans.

Para 2114, Jonas decidiu ir um pouco mais. Agora seriam postais do passado. Pesquisou em museus virtuais, chorou, comprou direitos e publicou.
Aquele natal não foi tão divertido. Uma angústia tomou conta do peito daqueles que receberam imagens de outros tempos. Parece que foi ontem. E perguntou-se até quando haveria amanhã.
Nunca se viu beleza mais triste.

(Postado em Colecionadoras, setembro de 2009)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Zefa

Ter muito amor e pouco dinheiro pode ser problema. Para Zefa era, mas ela mesma não achava não.
Era esperta, mas tão ignorante que chegava a ignorar seu próprio fardo. Ia seguindo. Ignorava o que uma criança de cinco anos na cidade grande sabia de cor: camisinha, medo das outras pessoas, doenças da alma.
Tinha 38 anos, embora não soubesse ao certo, e onze filhos. Todos criados bem soltos, ao contrário de Zefa, que só veio a conhecer um pouco de liberdade quando Antônio gostou dela e resolveu tirá-la de casa.
Era um marido maravilhoso. Trazia o sustento e dava muito carinho.
Quase nada faltava: tinham todos duas mudas de roupa para o dia-a-dia e outra para os festejos; uma refeição diária também era certeza.
O carinho bem que Antônio tentou conter. Tirou Zefa de casa menina, nem parecia ter quinze, e pensava em esperar até ela encaderar direito para pedir pelos principais deveres da esposa. Zefa teve fogo e pressa. Pouco antes dos dezessete estarem completos, dava a luz ao primeiro filho.
Logo depois da primeira noite de amor, Zefa tornou-se devota de Santo Antônio. Pelo nome do marido e pelo fato de ter marido - e dos bons, julgava. Achava Antônio bonito. Sentia uma alegria sem tamanho quando ele estava perto e uma saudade arretada - como ela dizia - quando ele demorava longe. Antônio não sentia essas coisas, gostava do jeito dela e pronto.
Sete Marias, quatro Josés, uma Zefa e um Antônio: essa era a família Costa, que morava em uma casinha de barro dividida em três quartos, uma cozinha e uma sala. O banheiro ficava de fora, assim como um antigo engenho e um quartinho de guardar as coisas grandes ou dar abrigo a um passante. Ficava essa estrutura no pé da serra, perto de um rio que vez por outra secava.
O bom de ter filhos crescidos, pensava Zefa, era que eles podiam ajudar melhor o pai na roça. Seria bom se fossem mais homens, mas as meninas eram fortes também. O problema mesmo é que a terra andava ficando fraca, o rio andava secando muito e meninos crescidos perguntam demais.
- Pai, foi Deus que escolheu quem ficava com cada pedaço de chão?
- Não, meu filho, a gente compra.
- Compra de quem?
- Do dono.
- E quem é primeiro dono?
- Quem vê primeiro.
- Então por que a gente não vai procurar uma terra boa que ninguém viu ainda?
- Ouvi dizer que não tem mais não, menino. Acabou tudo.
Na verdade Antônio tinha um medo danado de sair por aí e acabar perdendo aquele pedacinho também. Melhor terra ruim que nenhuma. Nem pensava que dividindo para onze já já aquela ali seria nada. Ou que os filhos teriam de ser mais um daqueles passantes da estrada, dormindo no quartinho dos outros. Antônio não pensava muito não. Sentia. O Sol, a fome, o calor, a brisa. E uma alegria que ele nem sabia porquê.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A tempestade



(Manaus, março de 2009)

Eu sei que a foto saiu tremida, que a luz não favorece, que o enquadramento poderia ser refeito em um crop. Mas é que me comoveu rever esta foto hoje...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Acordar

Não me levantarei. Não adianta. Só de imaginar o olhar Maria já me sinto cansado.
E quando começarem as reclamações? Sim, porque os sorrisos dos tempos de namoro morreram mais rápido do que poderia imaginar. Tanto quanto aumentaram em número e intensidade os impulsos de maldizer nosso dia.
Ah! E como eram bonitos os sorrisos de Maria. Não havia quem ficasse indiferente. Fazia-nos radiante só de ver.
É porque a vida já foi tão boa que hoje, definitivamente, recuso-me a levantar.

Acordei com a sensação de afogamento que desde os treze aparece em tempos espamódicos. Acabei por me habituar a ela. Quando vem, sinto, é para me avisar ser o tempo de parar e pensar.
Dessa vez é Maria que me afoga. Mas não consigo focar-me em sua consistência. Só consigo pensar que é muito bom não termos tido filhos.

Pressinto que Maria largar-me-á a qualquer momento. Não a culpo. Nem a mim.
Deve ser realmente difícil estar com alguém que sincera e claramente não se interessa pelo que se passou no trabalho, no salão ou na visita ao irmão problemático. Para mim, os momentos em que estamos juntos bastam. Tal comportamento me economiza tanta coisa. Por isso não poder me culpar tampouco. Sou economista de nascença e gosto-me assim.

Por vezes algo me diz que, mesmo sem saber, Maria gosta disso. E vai sentir muita falta quando seu próximo amor ligar de cinco em quinze minutos apenas para certificar-se de que ela continua apaixonada. Mas faz parte de ser gente só valorizar quando perde.

Gostaria que dessa vez ela fosse de fato. Não aguento mais a sensação de dejà-vu a me constranger os movimentos quando ela afirmar estar indo.

Sim, confesso, é sempre ótimo quando ela volta na manhã seguinte cheia de amor a dar. Ainda gosto de Maria.

Ela já se demora em vir reclamar que não levanto dessa cama. Mas não posso quebrar o nosso trato. Espero cansado de esperar, então.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

TPM

Sabe o que eu gosto na TPM? É que ela me dá certeza de que sou bicho. Simples, complexo, que pensa e não. Não sei explicar minha espécie. Mas não sou do tipo máquina.

Às vezes, confundo-me. A rotina é tão roboticamente repetida...
Meu relógio biológico é mais adiantado que o do despertador. Meu trabalho quase se auto-realiza, assim não estimulando mais meus neurônios. Minhas leituras entram instantaneamente em arquivos cerebrais que pedem urgente backup. Minhas “necessidades” de consumo me aproximam mais do carro que da moça que me pede dinheiro com o pobre menino nos braços.
Toda oito horas é igual, e todo meio dia é igual, e toda “em Brasília, dezenove horas” é igual! As noites variam, ok. Os fins de semana também, certo. Mesmo? Bem, não estou muito segura de nada por hoje.

Sei que vive a natureza seu ciclo menor, enquanto eu atravesso meu ciclo de 28X24 horas. E todo mês é a mesma coisa: vejo findar a cartela de anticoncepcionais, vejo nascer a lua cheia, vejo a barriga inchar. Daí a razão me garante que dessa vez eu não vou cair nas armadilhas dos meus hormônios. Quando vier aquela fome, aquela lágrima ou aquela angústia, a capoeira me ensinou, é só esquivar.
Breve ilusão. O que a capoeira me ensinou mesmo é que levar rasteira faz parte do jogo e, quando ela é bem encaixada, o tombo é inevitável. Você até vê ela vindo, troca olhares verborrágicos com seu parceiro de roda, mas cai.

TPM diz: Feia, gorda, chata, inconveniente, rabugenta, burra, desligada.
EU diz: Eu sei, não sirvo para nada, sou o excremento e o estorvo do universo.
EU II diz: Pára de ser louca, Patrícia. Não sabe que isso é tpm?
EU diz: Ah é.
Ah é o que? Ah é nada! Ah é tudo! Não é loucura da minha cabeça não. A realidade é que só nesse período do mês fico sã. Minha história parou e o relógio não. Meus dias são amontados de segundos desinteressantes. Como diferente seria se eu sou desinteressante? Minha casa, minha vida, meus amores, minha família. Brindo? Brindo o #@$%&*!
Quer dizer, melhor brindar. Acho que um vinho cai bem. Um back também. A lua está tão linda. É tão injusto eu amaldiçoar o mundo e essa pessoa singular que meus deuses e deusas construíram. Minha vida é tão boa. Meus amigos são tão fantásticos. Minha família é tão carinhosa. Meu trabalho me proporciona realizar tantas aventuras, tantos desejos. Meus sonhos são tão mágicos, meus planos tão práticos.

E os olhos voltam a encher de lágrimas. Dessa vez felizes. Em meia hora podem não ser. Não importa.

Eu sou bicho. Eu estou viva. Eu sou mulher. Eu sou fêmea. Eu sou mãe não consolidada. Eu tenho sangue pulsando. Eu morro e renasço todo mês. Eu sinto.

Vinícius de Moraes em sua música Berimbau ilumina: “capoeira que é bom não cai, mas se um dia ele cai, cai bem”. Esse texto é um voto de que seus tombos mensais sejam bem aproveitados.
E vou parando aqui porque a TPM tinha razão em uma coisa que me chamou lá em cima: muuuuuuito chata esses dias.

Com sangue nas veias e ainda não na vagina,
P.

PS: Nessa mesma música, Vinícius alerta que “quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”. Saiam de si sempre que quiserem. Amem sempre que puderem.

(E-mail escrito a amigas queridas, creio por volta de 2004)

sábado, 4 de abril de 2009

Pedacinho de Manaus


(Manaus, março de 2009)

domingo, 29 de março de 2009

I heart Toronto







(imagens feitas entre 2006 e 2007, na cidade de Toronto, ON, Canada)
A experiência de morar fora é a experiência de morar dentro. Só saindo do conforto para saber o que dá paz e incomoda. Ir muito longe, muitas vezes, é a única forma de chegar bem perto.
Ao contrário do que diz o mapa, o oposto do Brasil não é a Austrália. É o Canadá. Estações definidas, posturas definidas, direitos e deveres definidos. Tudo dá certo, o que provoca um desassossego danado para quem é tão tropicana.
No último dezembro, sem poder tirar férias, peguei-me sentindo mais falta da neve que da praia. Muito estranho.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Desejo de Grávida

Já passava da meia noite. E mesmo sendo noite de chuva, daquelas em que Amanda adorava dormir, não conseguia pregar os olhos. Passava o dia inteiro cochilando. Quanto mais pesava a barriga, mais sono sentia. Dormia em frente ao computador no serviço, conversando com amigas na praia. Chegou mesmo ao absurdo de dormir em pé na fila do banco, ainda que nem precisasse entrar em fila alguma. Mas quando chegava a noite era um suplício. Achava a cama quente, os pés doídos, o colchão duro, o cheiro do carpete forte.
Já haviam carpetado o apartamento todo. Julgavam melhor para a criança não se machucar quando começasse a andar. Foi quando o doutor alertou sobre os perigos dos ácaros. Iam tirar tudo na semana seguinte. E como tudo era feito para o bebê, Amanda já preparava Mateus para as noites sem sono.
- Mateus, levanta.
- Hã?
- Levanta, amor. Tem gente na cozinha.
- Quê!? – Mateus respondeu levantando da cama de uma vez só.
- Brincadeirinha, amor. Calma
- Isso é brincadeira que se faça?
- Senão você não acorda. Não fica bravo comigo. Escuta, eu estou com desejo. Daqueles de verdade. Você não vai querer que seu filho nasça com cara de mangaba, vai?
- Mangaba? Eu nem sei como é mangaba. Você já viu mangaba em Florianópolis?
- Não.
- Você já viu mangaba em algum lugar?
- Mateus, você está tentando arrumar desculpa. Vai ser pior pra você. Lembra o que a mamãe disse que acontecia com quem nega desejo de grávida? – questionou Amanda apelando para a tão querida sogra de Mateus – Eu sei que você não vai fazer isso comigo, com a gente. Então é melhor não enrolar que a chuva pode acabar aumentando.
- Amor, faz isso comigo não. Eu converso com o Felipe. Ele vai entender. Só hoje. Estou tão cansado.
- Como você vai saber se ele ficou convencido. Eu sou a mãe e estou sentindo que ele não vai ficar feliz enquanto gente não comer mangaba com calda de chocolate. Você sai para arranjar a mangaba e eu fico aqui fazendo a calda.

O Silvio ia ter de entender. Padrinho é para essas coisas. Amigo então. Campainha, campainha, campainha. Será que ele tinha saído? Não, e já dava para sentir o bufar e a cara de puto.
- Desculpa, cara. Não queria te acordar essa hora, mas me empresta sua Internet. Só um minuto.
- Claro, a da sua casa está com problema?
- Não. O problema lá de casa é de desejo. E eu acho que o desejo da Amanda é me ver na rua.
- E o que é dessa vez?
- Mangaba.
- Isso só na natureza, meu irmão. Na Internet não tem não.
- Tem de ter.

Não tinha. Também não tinha plano B. Nem celular. Então estava tudo resolvido. Dormia na casa do Silvio e dizia ter passado a noite inteira procurando. Se molhava um pouco antes de ir pra casa e pronto.
Mas não conseguiria mentir assim para a mulher. Era melhor procurar. Pelo menos um pouquinho. Filho com cara de mangaba ninguém quer. Nem quem não sabe o que é mangaba.
Não havia quitandas de emergência. Chovendo daquele jeito também... Postos de gasolina, supermercados. Mangaba era demais. Depois ia querer saber de onde vinha esse desejo. Se esse nome dava água na boca. Porque tinha certeza de que ela também não conhecia essa tal de mangaba. Perdeu três horas de sono tentando, mas voltou para casa pronto para o esporro. Que obviamente não aconteceu. Os dois anjinhos dormiam tranqüilos.

Na semana seguinte Felipe bem cedo conhecia a claridade. E se tinha cara de mangaba, ninguém ia saber.

(escrito para Quatro em 2001 e publicado em fragMIMtos em 2008)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Junho em São Luís


Eu recomendo!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Morri

Morri! De verdade, morri! E sinceramente não é tão mal assim. As pessoas passam a vida inteira com medo da morte, mas na verdade nem sabem o que temem. A morte, na verdade, não é tão diferente da vida não. Bem, posso garantir que não é como ninguém está pensando aí, mas não posso contar como é. As regras daqui permitem que eu escreva esse texto para falar da minha vida, não da minha morte.

Sabe, eu morri de acidente de avião. Fiquei o tempo todo me preocupando com stress, cigarro, carro, cinto de segurança, camisinha, qual era a melhor cor para meu cabelo, qual a roupa certa para sair com tal pessoa, como agir se me perguntarem isso, o que iriam achar de mim se eu falasse tudo que penso, preciso de um emprego... Por causa desse emprego, morri.

Calma. Não estou querendo dizer o que é bom ou ruim para se preocupar. Cada um se importa com o que quiser, cada um vive do jeito que quiser. E nem pensa em não trabalhar porque emprego mata que isso não foi isso que eu quis dizer.

Não sei se alguém sobreviveu para contar, então vou falar da sensação de ver a morte de frente. Ah! A dona morte... Bem, uma falha do piloto ocasionou a morte de um monte de gente. Não tem problema, não estou reclamando. Só quero dizer que o ser humano é falível e não adianta perder tempo se culpando porque o que já aconteceu não tem jeito de mudar, o importante é aprender e melhorar, quer dizer, se você tiver algum interesse nisso.

Tá! Falando do acidente... Em poucas, liberdade. Saber que você vai morrer dá uma sensação incrível de liberdade. Sério. E não é liberdade para fazer merda, é liberdade para fazer o que realmente se quer. É muito chato pensar que não estou mais do lado daí para fazer um monte de coisas, mas vendo tudo pelo lado positivo (se é que essa história de bem e mal existe), posso dizer que, em vida, a vez em que mais me senti livre foi quando soube que iria morrer. Não precisava me preocupar com mais nada, tudo que fizesse estava bem, mas tive pouco (pouquíssimo) tempo para curtir isso. Dá medo, é verdade, mas é bom fazer uma coisa da qual você sente medo.

Eu estava indo de Brasília para o Rio de Janeiro. Vivia nessa ponte aérea. Não sentia mais falta de Brasília, desde que saí de lá. A não ser dos meus pais e de uns poucos amigos de verdade que fiz durante a vida. É, porque amigo de verdade é difícil. A gente costuma pensar que só porque vive grudado com alguém essa pessoa é amiga, que engano! Quando você chega aqui vê que tempo e espaço é só besteira. Mas você vai ter de vir para entender.

Minha mãe estava meio doente e tinha ido à Brasília para visitá-la. Sai de lá sem saber se ela estava muito bem. Mãe, se você está lendo isso, eu estou bem, espero que você também.

Quando eu mudei para o Rio foi maravilhoso. Só cheguei a morar lá por três anos (quando morri era jovem, aqui não tenho idade). Mas foi ótimo! Conheci muita gente e vi que essa história de violência é real, mas o povo exagera um pouco. Pô, vai querer cobrar o que de quem nunca teve uma chance na vida? Educação, respeito, cidadania? Só pode ser brincadeira.

Eu morava sozinha em uma kit em Botafogo, mas com certeza não ia demorar muito para eu comprar o apartamento que eu estava querendo em frente à praia. Ia facilitar muito porque eu adorava pegar Sol todo fim de semana. Bem, eu morava mais ou menos sozinha, porque meu namorido passava a semana toda lá em casa. Eu estava muito apaixonada. Pensando melhor, mais ou menos apaixonada, porque eu passei a vida toda com medo de amar de verdade e sofrer.

Eu cresci em Brasília e me formei lá. Aliás, estudei a vida toda lá. É bom estudar, mas é meio chato. Só que é muito bom. Mas se perde muito tempo com isso. Não sei se dá para entender. Estudar é mais ou menos como manga. É bom, mas tem aquelas coisinhas que insistem em ficar no meio do seu dente. Sei lá, acho que tudo é mais ou menos como manga então. Deve ser bom estudar de tudo, prestar atenção nas coisas. Não sei...

Olha as coisas mudam durante a vida, quer dizer, não sei. Acho que durante a morte você percebe que não mudam tanto assim. Todo dia se erra e se acerta. E se faz coisa boa e coisa ruim. E se tem uma idéia genial e uma outra daquelas que não se conta nem para você mesmo dentro do quarto no escuro. E se conhece alguém e se deixa de ligar para quem queria. E se ouve algo que vale a pena e se deixa de falar algo que seria tão bom. E se ganha uma moeda e se perde um outro tostão. E é Sol e é chuva. E é casamento e é viúva.

Eu também já fui criança. Sem aquelas besteiras de “a infância é a melhor fase da vida”, que criança também tem problema pra caramba. Ser criança é bom. Ser gente é bom, mas é preciso ser gente mesmo. Quando eu era criança era bom porque nem tudo era assim tão importante. Coisa boba era coisa boba. Coisa séria era coisa séria. Quando eu era feliz era de verdade, quando estava triste era de verdade. Depois que cresce a gente fica bobo porque tudo fica sério, ou tudo fica sério porque a gente fica bobo. E tem vergonha de tomar banho de chuva. Eu queria ter tomado mais banhos de chuva.

Daí, eu fui neném. De colo mesmo. Dessa parte eu só lembrei quando cheguei aqui. Era chato pensar e não poder falar, querer fazer e não saber andar, correr... É meio chato agora também, por causa disso. Eu penso muito, mas não dá mais para falar para ninguém. Eu quero ir a mil lugares, mas não posso mais estar presente em nenhum. Às vezes, só de castigo eu penso em todas as vezes que podia (e devia) falar e calei, em tudo que eu gostaria de mostrar para todo mundo e não mostrei para ninguém, todos os abraços que eu queria ter dado e, nossa (!), se arrependimento matasse... não iria adiantar nada porque eu já estou morta mesmo.

Mas antes de tudo isso, eu nasci. E se desde a hora que eu nasci, tivesse a consciência de que iria morrer (afinal, não precisa doença, não precisa estar velho, não precisa ser uma bruxa malvada para morrer – só precisa estar vivo), talvez, eu passasse a vida inteira com aquela sensação de liberdade que senti nos segundos que o avião demorou para cair. Daí, se cuidar e fazer sempre o melhor possível não iria ser um sacrifício, mas um prazer. Talvez a vida fosse diferente da morte, porque hoje, sinceramente, não sei se estava mais morta aí do que estou agora. Não sei dizer se vivi intensamente ou vivi de deixar as oportunidades passarem.

Você sabe?

(escrito em um caderno, entre 1997 e 2001)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Bike


(Foto tirada em agosto de 2007)

Curtir Brasília durante a seca é uma arte. Uma das boas técnicas é pedalar até a beira do Lago e ficar curtindo um revezamento peixinho-calango-peixinho-calango...
Neste momento, feliz por estar chovendo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Dona Chuva

Eu gosto de ser chuva de criança

Porque criança ri de mim e comigo
Adulto me chama e me xinga

Criança gosta de molhar a cabeça e a língua
Adulto gosta de sabonete
Cheiro de verde
Cheiro de bolha

Criança acha engrançado sentir squish no meio dos dedos do pé
Adulto tem nojo do respingo de lama na calça

Criança fica me olhando do lado de dentro da janela com desejo
Adulto fica me olhando do lado de dentro da janela com tristeza

Silêncio
Trânsito

Chuva chega!
Chega de Chuva!

Mas eu sou a mesma de quando você era pequeno
Eu era pequena, passageira
Você ficou grande
Eu fiquei enorme, incômoda

Lava logo essa alma
Esse raiva, esse medo, essa pressa, essa capa
Eu não tenho nada a ver com isso
Isso é você

(postado em fragMIMtos em 06.11.07)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Sinfonia



(Brasília, um domingo do segundo semestre de 2005)

Era um domingo como outro qualquer, daqueles em que acordo, seguro a juba em um alto coque, coloco um óculos escuros gg e sigo para a padaria a fim de um mixto-quente-com-ovo. Em épocas felizes, a máquina fotográfica me acompanha. E os pássaros acompanham a si mesmos, cantando de cor, compondo partitura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Revisão

Tudo começou quando eu era pequena demais para lembrar até hoje, mas eu lembro. De leve. Lembro que ficava olhando pela janela do carro para os letreiros das lojas tentando pegar a lógica. Acho que a primeira letra que soube foi F, de farmácia. Não, deve ter sido P, de padaria, ou Patrícia – talvez os dois. Lembro, e isso com muita certeza, que já gostava de letras antes de saber ler. Deve ser porque meus desenhos sempre foram horríveis.

E depois que aprendi a ler então, gostei mais ainda. Quando entendi no que dava a soma das letras, e a soma das palavras, e a soma das frases... credo! Queria escrever até em carro em movimento – porque antes de poder dirigir, sempre achei os minutos transcorridos em um carro a maior perda de tempo (o carro era lugar nenhum).

Enfim, as palavras. Queria entendê-las todas, usa-las, canta-las, rabisca-las. Tinha sempre o estojo abarrotado de canetas coloridas e cheirosas. E enquanto as pessoas que desenham tinham os cadernos com as margens cobertas de traços divertidos, eu mantinha os meus escritos em duas ordens: de frente para trás, as matérias da escola; de trás para frente, as matérias da alma. Gostava muito de todas elas.

Então cresci uma menina estudiosa, daquelas que queriam saber tudo. Ou talvez eu só quisesse mesmo era escrever tudo, com muitas cores fluorescentes e caligrafia que mudava a cada nova série, ou novo humor. O certo é que quanto mais eu me interessava por tudo, mais eu gostava de tudo.

No terceiro ano, como se não bastasse as minhas dúvidas pessoais, ainda vieram os professores complicar: “por que você não faz química/matemática/física?”. Sim! Pasmem! Os de exatas! Ora, bolas. Eu gosto de palavras, como vou mexer com números e fórmulas? Não dá!

Pelos professores de História eu era apaixonada - achava. Só depois fui perceber que, na verdade, era apaixonada pelo que eles falavam. Lembro-me de pensar: deve ser bem legal ter amigos assim quando eu crescer. Podia fazer História. Mas ser professora...

O mestre da Geografia, bem mais novo que a média do restante do corpo docente do Centro Educacional Sigma, certo dia, cansado de me procurar pela sala para ver se eu merecia ou não falta – prestar atenção na aula é uma coisa, na chamada é outra – chamou-me ao fim da leitura da lista.
“Patrícia, você vai prestar vestibular para que mesmo?”.
“Comunicação”.
“Ah, tem ido bem. Pode ir lá continuar praticando”.
Nunca mais me perturbou. E a partir daquele dia a dúvida foi só entre Jornalismo ou Publicidade. Fiquei com o segundo.



A UnB foi simplesmente uma delícia.

Os dois primeiros anos foram de farras ininterruptas. Sim, sem exagero, segunda a segunda, de bar em bar, beber cair levantar e por aí vai. Experiência de vida também tem de ter, né?

Bem, sinto até hoje as consequências desses anos. Embora não tenha perdido a paixão pelas letras, o espírito nerd foi quase aniquilado. E sempre vacilo entre a opinião de que foi melhor assim e a de que não foi. Enfim, é o que é.

Os dois últimos conciliei com os primeiros estágios. E até que dei sorte. Tirando o breve período de loucura em que achei que era atendimento publicitário, todos as minhas experiências foram bem sucedidas, ao menos para os meus padrões. Eu trabalhava com o que mais amava, afinal. Como seria diferente. Eu era redatora.



Tudo começou com a extinta Atelier, de onde saí quando eles resolveram ser uma agência voltada apenas para a Internet. Desses breves quatro meses o que mais me lembro foi da ação que rolou na semana em que cheguei. Ela consistiu em um adesivo de cola suave que imitava um risco na lataria do carro. Ao final do risco, encontrava-se a logo e o telefone de uma oficina especializada em desfazer esse tipo de estrago. Definitivamente, a genialidade é simples.

Depois foi a vez da (ou a minha vez na, como queiram) Fischer América Sette Graal. Lá encontrei uma galera apaixonada pelo que faz: criar! E fiquei envolvida por isso. Conheci mais de música, fotografia, artes plásticas, português, piada. Amadureci muito enquanto profissional, mas nem tanto em termos pessoais. Saí de lá brigando com uma pessoa de quem gostava muito e, além de fechar uma porta (ou várias), perdi uma amizade. Se posso dar um conselho, fica esse: não faça isso em casa, não feche portas.

Enfim, já estava na hora de deixar de ser estagiária e consegui meu primeiro trabalho com salário de gente grande. Na época, pensei ter encontrado o paraíso profissional. Foi um ano de D&M, fazendo parte de uma equipe fantástica, que conseguiu atingir uma sintonia como não mais voltei a ver. Tudo tinha de sair pelo menos bonito. O texto tinha de ser, no mínimo, inteligente – nada de subestimar o nosso receptor. Tinha filho de senador, japonês, chileno, loira, morena, mineiro... de tudo. E, mais que isso, tinha muita vontade de fazer um bom trabalho.

O paraíso virou inferno quando os donos da agência resolveram achar que um diretor de criação não era suficiente e importaram do Rio uma das pessoas mais negativamente carregadas que já conheci. A criação foi partida e eu caí do lado desse cara. Logo no primeiro mês, logo no primeiro trabalho em que discordamos, o cara pediu minha cabeça.



E minha cabeça foi para onde já estava desde que tinha formado, seis meses antes desse fato: São Paulo. Só para dar uma volta, sabe? Ver o que achavam, se eu tinha jeito. Sei...

Sei que deu certo. Era uma segunda-feira chuvosa, às 8h da manhã, quando peguei um táxi naquela cidade desconhecida para conhecer a Angélica. Não a da marquinha, a avenida. E logo na primeira entrevista ouvi: o estágio é seu! O resto da semana foi só para fazer novos contatos, avisar que eu estava chegando a São Paulo – achando que era para ficar.

Eu gostei muito de ver meu estágio de previsto um mês tornar-se um de seis; de ver idéia minha na Veja, na Revista da Mônica, em rádios nacionais; de ter tempo para pesquisar e trabalhar num texto – desde a primeira idéia até ele ficar perfeito; de ouvir pessoas admiráveis me darem dicas de como chegar lá; de ouvir atendimento falar que eu merecia ser contratada; de ter feito um curso de roteiro e visto mais um monte de coisa que eu gostaria de estudar por lá.

Mas eu não gostei de ficar doente por seis meses – olhos, nariz, joelhos... Eu não gostei de ver as duas horas de almoço passarem como se fossem dois minutos. Eu não gostei de passar a Copa longe dos amigos. Eu não gostei de conhecer gente que gosta de fazer os outros se sentirem mal. Eu não gostei de ouvir tanta gente falando mal de Brasília. Eu não gostei de me sentir uma formiga.

Enfim, minha cabeça foi para Sampa, mas meu coração nunca. E eu não conseguiria viver sem coração. E quando meu estágio acabou, eu resolvi declinar da oferta de um outro conhecido e voltei para casa.



Voltei sabendo que não era mais publicidade. Se fosse, seria São Paulo. Lá a coisa é séria. Em Brasília, EU não seria mais séria.
Então era hora de começar a andar para outro lado.
Qual? O da paixão antiga: História. Graduação de novo porque não sabia o que fazer em um mestrado ou especialização. Andando, devagar, de graça, com graça, um dia eu ia descobrir. E enquanto isso, a publicidade continuaria a pagar as contas. A despeito de desgostos, eu gosto.



Quando dei por mim, estava no meio do curso de História sem perspectivas e estagnada em uma carreira que não me satisfazia. Fazer o quê? Escolher um caminho misto? Fazer uma viagem? Os dois. Mas isso eu conto depois que a conversa está se alongando demais.
Só sei que deu tudo certo e agora chegou a hora de se despedir de vez da publicidade para começar a caminhar aquele caminho do meio de que falei a pouco.



Apesar da vontade, doeu um pouco. Porque foi bem na hora que eu entrava na Radiola! Bem na hora em que reencontrei o estímulo que já nem conseguia mais lembrar qual tinha sido... Ele era feito de colegas de trabalho interessantes, profissinais a fim de fazer o melhor, boas referências, carinho e um ar equilibrado entre seriedade e leveza.
Mas é isso, né? Revendo essa história, acho que deu tudo certo. Sinto que aprendi muito e chegou a hora do próximo passo.



Obrigada, publicidade. Obrigada, todos que conheci na faculdade e no mercado. Obrigada, Radiola pela excelente despedida.
Só posso acreditar que se deu tudo certo até aqui, vai continuar assim.


(Pareceu um bom de lembrar para o finalzinho deste ano de tantas mudanças. Publicado em fragMIMtos em julho/08)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Janela (SLZ)


(foto tirada em agosto de 2007)

A história desse lindo prédio é triste. Ele pousa em São Luís, Maranhão. Bem no centro da cidade. E, assim sendo, é tombado pelo patrimônio histórico, não podendo ser reformado ou demolido. Seu dono, sabendo do valor do terreno e mais nenhum outro, resolveu remover o telhado (tal atitude não está prevista no código que protege patrimônio) e deixar as intempéries correrem soltas pelo material hoje construído e amanhã, quem sabe quando, destruído por si só.
Acredito não faltar muito para ele lograr seu êxito. Por detrás dessa fachada, tudo que se vê é mato.
Uma janela, provavelmente, mais bonita para se ver de fora.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Você tem medo de quê?

Se o contato do pé com a grama é bem mais verdadeiro que da sola do sapato com o asfalto?
Se a luz da lua é bem mais segura que a da lâmpada?
Se você aprendeu a dormir sozinho aos dois meses de idade extra-ulterina?
Se dormir de boca suja é tão limpo quanto escovar os dentes?
Se lavar o rosto dá mais paz que maquia-lo?
Se o cobertor não acaba com o frio?
Se o sonho é tão real quanto o despertador?
Se manter-se deitado não impede o dia de amanhecer?
Se as palavras são tão verossímeis quanto o silêncio?
Se parar é tão inconsequente quanto andar?
Se ver é tão escuro quanto fechar os olhos?
Se os monstros moram tanto lá fora quanto aqui dentro?
Se as armas são carregadas pela sua mão?
Se fazer ou não significam tão somente escolhas?
Se beber é tão enebriante quanto ficar sóbrio?
Se correr não adianta nada?
Se acreditar é tão inseguro quanto duvidar?
Se o inventado revela tanto quanto o vivido?
Se a sorte ou o azar são apenas pontos de vista?
Se ser é tão arriscado quanto mentir?
Se o acaso é o certo?
Se o amanhã é o que mais se quer?
Se o fim é a única garantia?
Se viver você é a única possibilidade?

(Publicado em fragMIMtos, em 08/2008)

domingo, 23 de novembro de 2008

Chevrolet


(Foto tirada em maio de 2007)

Quando analiso design, sempre tenho a impressão que nasci na época errada. Acho tudo que é antigo mais bonito.
Carro antigo então... vishi! Se esbarro com um na rua, fico bobona admirando. Se é de conhecido, ataco sem cerimônia. E se estiver com uma câmera na mão, registro. Só para poder ficar babando depois, e depois, e depois.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Medo da Morte

Por que ter medo da morte? É inútil.
Todos mais cedo ou mais tarde morreremos.

De acidente, parada cardíaca ou velhice pura.
De malária, de solidão, de azar.
De aids, de fome, de tiro.
Por tudo ou do nada.

Encontraremo-nos irremediavelmente a sete palmos da superfície terrestre ou no paraíso dedicado àqueles que nele acreditam.

Os que malham morrerão mais saudáveis.
Os que estudam morrerão mais espertos.
Os que amam morrerão mais tranqüilos.
Os que correm morrerão sem perceber.
Os que escrevem morrerão contando.
Os que fotografam morrerão assistindo.
Os que querem morrerão mais rápido.
Os que temem morreram chorando.

E aviso aos que nada: vocês também morrerão.


(Morte e Medo estão entre os meus temas prediletos. Casaram-se neste texto como uma obrigação de faculdade, um projeto de final de curso. Foi lá longe, em 2001. E eu ainda gosto dele)

domingo, 9 de novembro de 2008

Parque Piton

Há tempos o parque tem o nome de alguém da família JK. Acho que da Dona Sarah. Mas Sarah pra mim é nome de hospital. O parque cura de outra forma. Como trazendo lembrança de infância e ressacas de domingo. Épocas em que ele era Piton e meu corpo de tudo faria.



(Foto tirada em julho de 2008)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O caroço

Figura entre as piores coisas da vida acordar cedo. Não sei se você crê que Deus ajuda quem cedo madruga, mas eu creio que Ele não atrapalha ninguém. E sigo pela vida detestando acordar em qualquer hora do alvorecer que preceda as 8h. 8h30.
Mas há coisa pior. Acordar cedo e ainda assim atrasada, por exemplo. Afinal, quando assim, seu corpo pede calma e o tempo pede pressa. Quem atender?
Como nada é tão ruim que não possa piorar, há sempre algo que pode deixar a situação ainda mais irritante. Para citar: uma espinha gigantesca no meio da testa.
Acredito que basta. Mas não bastou. Ao lavar o rosto como de hábito, sinto um incomodo, quase dor, no meio do queixo esquerdo. Ai, que isso! Apalpo, aperto, rebolo a bola. Sim, sem dúvida lá está um caroço que ontem mesmo não estava.
Paranóica, hipocondríaca, com histórico de câncer na família e um caroço no queixo. Ah, que acordou cedo, atrasada e com uma espinha na testa. Pacote completo para um dia triste.
Meu Deus! Como as coisas podem mudar tanto em um instante, em uma noite de sono?
Dormi uma pessoa saudável, pronta para continuar reclamando da vida por mais uns dez anos, pelo menos, até eu aceitar a mesmice que construí, até aceitar a vida mais ou menos que optei levar, até aceitar que minhas atitudes, ou a falta delas, é que me levaram ao nada. E então eu acordo assim, a beira da morte! Noite cruel...

Eu ainda tinha tantos sonhos a concretizar (ou a me manter sonhando).
Eu queria ser escritora. E algo me dizia que um dia eu conseguiria. Vinha praticando tanto. Diariamente. Apaixonadamente. Escrevendo textos mentais a todos os instantes, criando histórias mirabolantes para cada pessoa estranha que topava comigo na rua, achando graça de expor minhas bizarrices, afinando o lápis. De alguma forma, decidida. Em primeiro lugar decidida a acreditar e gostar da minha produção. E, mais que isso, até correndo atrás de meios para apresentá-la mais de acordo com o momento pós-moderno.
Eu queria ser atriz. Muito. Mas desde criança botei na cabeça que não ia rolar e era melhor eu beijar os livros ao invés de continuar sonhando em beijar o Guilherme Fontes (dá para acreditar que o ele já foi galã? talvez seja melhor mesmo morrer jovem). O lance de atuar era para poder viver mil e uma formas em uma só encarnação. Ser criança da idade do Chavez, ser homem e até acreditar no meu pau, ser flor, gota e todas aquelas coisas que a gente tem de representar nas primeiras aulas daqueles cursos que a gente faz dizendo pros outros que é só para ganhar desenvoltura. A verdade é que eu, lá no fundo, queria ser atriz.
E eu queria tanto fazer algo grandioso para ajudar o mundo. Ter uma idéia genial que solucionasse em uma só tacada as questões ambientais, as guerras, a má distribuição de renda, os problemas de logística entre a produção de alimentos e a mesa de quem tem fome, a política nacional, as dificuldades em se viver de arte em terra brasilis, o câncer. E como não fiz nada disso, ele me pegou. Oh céus!

Agora que só me restam seis meses, talvez oito, e eu não vou mesmo pedir ao Saramago que escreva o prefácio da segunda edição do meu primeiro livro aclamado por público e crítica, tampouco vou contracenar com a Audrey Tautou, nem provar-me uma reencarnação cosmopolita-urbana de Jesus; que faço?
Primeiro: peço perdão para minha mãe por não ser a amiga que ela merece. Explico para ela que agora estou descobrindo que aquela besteira lá foi mesmo um trauma daqueles e foi por isso que eu me afastei. E falo que eu sei como ela se sente porque eu sinto igual. E que eu sei o quanto sou idiota de ter esperado a morte vir falar comigo para assumir tudo isso e mudar minha atitude. Daí eu deito no colo dela e choro um pouco.
Depois eu falo para os meus avós que eu imaginava que eles iriam primeiro e de alguma forma julgava-me preparada para isso. Porém, a reviravolta do caroço fez-me ver que a gente nunca está preparado para morte, a não ser que esteja vivendo muito. Agradeço-os por tudo e peço desculpas pelas ausências, por não ter aproveitado a minha sorte de ter avós tão próximos por tanto tempo.
Que mais? Ah, a partir de hoje ligo para os meus amigos todo dia, toda hora. E vou insistir para eles almoçarem comigo, e jantarem comigo, e assistirem a um filme comigo sentados juntos em um puff só. Vou dizer que a vida, agora que se vai, só faz sentido mesmo porque os conheci e os amei a cada risada e a cada probleminha que só por causa deles foi tão pequeno.
Vou acordar mais cedo, e pegar mais sol, e andar a pé, e fotografar mais (às vezes menos), e comer muito chocolate.
Vou continuar escrevendo, porque acho que a dor é ótima para a criatividade e para a sinceridade.
Vou sair muito mais para dançar, sem dúvida - toda segunda no Calaf e sambar de quinze em quinze dias!
Não sei se vou viajar, sabe? Eu adoro viajar, mas agora, com tão pouco tempo de vida, acho que vou preferir ficar por perto dos meus.
Só vou comer as coisas mais gostosas do mundo, nos restaurantes mais legais. É, acho que esse vai ser meu último pedido.
Vou parar com a terapia. Algo me diz que vou me conhecer muito agora. Assim, sozinha mesmo.
Vou rezar e agradecer muito pela oportunidade de ter estado aqui, de ter sido quem fui, de ter passado por tudo que passei.
Chega. Vou viver a cada dia o que estiver afim de fazer naquele dia. É isso. Sem planos, sem amanhãs.
Ai, sabe que dá um certo alívio saber-se perto do fim? Parece que cheguei na última fase (conhece aquela das quatro fases?) bem rapidinho. Ufa!

Vou ao médico para saber logo quanto tempo me resta.
- Olá.
- Olá.
- Então, o que você está sentindo?
- Doutora, de ontem para hoje apareceu esse caroço aqui ó. Não sei o que é, o que pode ser e resolvi aproveitar a tarde livre para me certificar.
- Sei. Senta aqui na maca.
Apalpa. De um lado e de outro. Aperta.
- Um gangliozinho.
- Quê?
Estetoscópio.
- Respira. De novo. Mais uma vez... Pulmão está limpinho. Vamos ver a garganta. Aaaa.
- Aaaaa.
- A garganta está um pouco vermelha.
- Pois é, há uma semana. Está melhorando agora. Estou tomando um xarope. Mas o que é o caroço doutora?
- Um gânglio.
- O que é isso?
- Gânglios são protetores do corpo. A gente tem muitos aqui no pescoço, na virilha, aqui... Quando a gente fica doente, eles trabalham mais para equilibrar. A sua garganta deve ter ficado muito machucada, então os gânglios do pescoço trabalharam muito e esse aqui inchou. Mas está pequeno, molinho, bem normal.
- Não é melhor tirar?
- Tirar sua proteção?
Carinha de cachorro que fez arte e foi pego.
- Não é câncer.
Será que a médica lê pensamentos?
- Pode ficar tranquila, não precisa tomar nada. Ele vai desinchar assim que sua garganta ficar zerada. Se voltar a crescer, você volta. Mas não vai. Fique tranquila.
- Não preciso fazer nada mesmo.
- Muita água. Muita água.

Bem, já que não precisa fazer nada, né? Para quê...



(Escrito e publicado em fragMIMtos em 15.08.08)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Lençóis Maranhenses

And I feel like telling so many stories about it...



(Tirada em agosto de 2007.)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Carta para Maria

Ai Maria,

Te amo tanto.
Se eu fosse mulher te escreveria uma carta de amor, seguraria tuas mãos na rua e deixaria meus olhos brilharem livres em todas as vezes que te visse.
Se me fosse autorizada a verdade, diria que a punheta mais gostosa de minhas madrugadas bato pensando em ti.
Se tudo fosse fácil te convidava para rodar o mundo de moto, tomar banho nos rios, comer de caridade ou pesca e fazer sexo só quando a gente quisesse mesmo. E por horas.
Se quisesses saber, eu falava para parar de pintar o cabelo e andar com aquela tal de Paula porque a voz dela é simplesmente insuportável. Como você suporta, Maria?
Se eu tivesse coragem, gritava no meio da rua que só penso em ti e, se tu não me corresponderes, dou-te um tiro.
Se eu tivesse muita grana comprava um daqueles vestidos lindos, e sapato, e bolsa, e brinco, e anel. Mesmo achando que não precisas de nada disso.
Mas não é nada disso. Sou homem em vida difícil. Minto porque tu não queres saber. Tenho muito medo e pouca grana. E, na certa, tu és alguma coisa que eu inventei.


(Texto originalmente escrito em um fundo de caderno há muito tempo e publicado no fragMIMtos em 24.10.07)

sábado, 18 de outubro de 2008

Halifax - Canada



(Foto tirada em abril de 2007)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Namiohoroguenkio

- Posso falar com você? Eu não sou ladrão.
- Diga.
- Olha só. Meu nome é William, moro no Alemão, tenho 8 irmãos e minha mãe, nunca conheci meu pai. A gente está com comida em casa, mas sem o botijão de gás, que custa 40r$.
- Eu sei, tenho casa também.
- Você cozinha?
- Não todo dia, mas cozinho sim.
- Então você sabe. Será que pode ajudar?
- Posso, mas vou querer uma coisa em troca.
- O quê?
- Eu não sou daqui e quero chegar até a rua tal, você me ajuda?
- Ajudo. Vamos por aqui.
- Preferia ir pela beira-mar.
- Tudo bem. Hoje está um dia bom mesmo. Eu até mergulhei no mar.
- Você não mergulha sempre?
- Não. Só quando estou sentindo uma coisa ruim, sabe? O mar ajuda a tirar qualquer mau-olhado. Mergulhei hoje e fiquei melhor.
- Pois é, sinto a mesma coisa. Estava mal quando vim para cá, precisando muito de um banho de mar. Dei o primeiro mergulho e parece que tinha tirado uma tonelada das minhas costas.
- Estava mal por quê?
- Não sei, ando me sentindo mal.
- Mas por quê?
- Não sei.
- Sabe sim, não quer me dizer.
- Talvez. Acho que não estou conseguindo dizer nem para mim. Tenho me sentido a pior pessoa do mundo.
- Tá errada. Só entre nós aqui você já está melhor. Imagina se comparar com o mundo todo. Deve estar melhor que muita gente. Tenho certeza. Olha ali - falou apontando alguém que dormia no chão.
- Me diz uma coisa. A galera do morro é bem unida, né?
- Bastante. Não falta nada para ninguém lá não.
- E mesmo assim você precisa descer para pedir?
- Eu poderia pedir lá, mas ia ficar devendo, sabe como é? E não quero mais ficar devendo nada.
- Sei. Mas eu ia perguntar era outra coisa. Por que o cara chega nesse ponto? Por que ele está dormindo na rua? Ele não consegue pedir ajuda em algum lugar?
- Olha, a comunidade ajuda os seus. Qualquer um que nasceu lá onde eu nasci está protegido ali. Mas não é qualquer estranho que chega e pronto. E esse cara está assim porque ele quer, né? Se ele quisesse sair daí, ele faria alguma coisa para isso e ia conseguir. Ele vive assim porque ele não quer nada. Não quer ter nada. Não quer obrigações. Quer poder parar e deitar onde e quando der vontade.
- Bom ouvir isso de você. Quando a gente pensa assim, estando do outro lado da história, parece que está sendo injusto.
- Qual lado? Daqui do asfalto?
- É.
- Olha, eu acho mesmo que qualquer coisa que a gente põe na cabeça que quer e corre atrás a gente consegue. Tanto faz onde a gente começa. Importante é saber onde quer terminar.
- Você é bem malandro, né?
- Não sou malandro não. Malandro demais se atrapalha. Eu sou inteligente, isso eu sou mesmo. O que quero, eu paro e penso como conseguir e consigo. Sabe aquele cara que eu estava falando antes de você?
- Sei.
- Ele disse que não tinha dinheiro.
- Engraçado, eu pensei até que vocês se conheciam. Ele estava falando espanhol, né?
- Estava. Conheço nada. Está a trabalho aqui. Cheguei perto falando a mesma história do gás que te contei. E ele disse que não tinha. Depois me deu umas moedas, depois uma nota de dois. No final me deu uma de dez. Tudo isso dizendo que não ia me dar nada. Mas eu fui mais inteligente que ele. Consegui o que queria só com argumentos e ele não conseguiu o que tentava, o que era mais fácil, que era só me dizer não e não me dar.
- Então você está é rico, né? Se cada um que assunta consegue dez reais...
- Ninguém fica rico assim. Mas, como eu disse, sou inteligente. Sei com quem conversar.
- Deve ter gente que te olha e já sai correndo, né?
- Vishi! Muita gente.
- Você se sente mal?
- Pra caralho. Às vezes eu estou de bobeira, só passando e vejo as pessoas segurando a bolsa, se aproximando umas das outras, me olhando desconfiadas. Olha, eu não sou santo não, mas não sou uma pessoa ruim. Já tive de roubar sim, mas nunca assim direto na cara da pessoa.
- Já matou?
- Já. Matei um policial. Por isso que estou aqui pedindo essa grana. Não posso voltar pra onde moro, estou marcado. Mas consegui falar com a minha mãe e ela disse que estava precisando. Então estou me virando. Eu trabalho no morro e não posso trabalhar agora. Mas não quero que minha mãe peça nada por lá, prefiro pedir aqui.
- E como chega nela?
- Vou mandar pelo cara da kombi que eu conheço.
- E não tem medo dele sumir com a grana?
- Se ele acha que a vida dele vale quarenta reais... a minha não vale, a sua também não, certo?
- Agora fiquei com medo.
- Vamos mudar de assunto então.
- Você já estuprou?
- Ficou louca!!! Entre os meus a gente esfola quem faz isso. É honra. Isso não existe.
- Sei. Quero perguntar mais uma coisa.
- Diga.
- Então, se essa galera da polícia que quer te pegar, te encontrar...
- Já era.
- E o resto da polícia nem corre atrás?
- Hahahaha. Não quer nem saber. É tudo um monte de vendido. Para um lado ou para o outro. Mas tudo vendido, frouxo. E eu nem identidade tenho. Nem vou mais pra escola, fui expulso na oitava série e não voltei mais. O trabalho que faço não assina carteira.
- Talvez você nem exista mesmo.
- Isso. Para a lei, eu sou só uma certidão de nascimento e uma passagem na "febem".
- Olha, eu acho que vou voltar lá para onde eu estava mesmo. Como a gente faz? Só estou com uma nota de vinte e queria pegar uns cinco reais de parada, rola?
- Rola. Tem um morro aqui perto. Vamos por aqui.
Atenção, tensão, silêncio.
- Quero ficar aqui embaixo.
- Beleza.
Parada ao pé, esperando e analisando. Pessoas como eu, com a pele um pouco mais escura e mal-tratada, as mãos ásperas, as roupas que um dia julguei não ter mais função. A música é o mesmo funk que toca na praia, assim como o céu é igual em qualquer parte. Muitos e muitos fios truncados saem dos postes dali para outros mais rústicos e mais para cima. Olho e sou olhada, observo e sou observada. Eu, curiosa. Eles, sinto, sabem exatamente quem sou: mais uma cliente, metida a valente.
- Bora.
- Já?
- Tudo certo. Poxa, foi super legal. Você deveria ter subido comigo. A galera lembrou de mim, me tratou bem. Legal saber que aqui é limpeza pra mim. Esconde isso, pra mulher é mais tranquilo. Você quer voltar, né?
- Quero.
- Eu te acompanho uma parte.
(...)
- Olha, taqui a grana. Espero que ajude mesmo.
- Vai ajudar sim. Vou até falar a verdade toda mesmo agora. Dos oito irmãos, dois são mais velhos e já saíram de casa. Na real, somos seis. Tem moleque até de quatro anos. Mas tem comida lá, sabe? Minha mãe trabalha. Minha irmã que já saiu e conseguiu estudar sempre manda algum. Mas esse mês faltou e faz três dias que minha mãe não pode fazer comida pro pessoal. Vai ajudar com certeza. E você? Está melhor?
- Estou, estou sim. Estava precisando caminhar, trocar uma idéia. Valeu.
- Quero te ensinar uma coisa.
Mais uma, pensei.
- Namiohoroguenkio.
- Quê?
- Namiohoroguenkio. É uma palavra budista. Quando você descobrir o que quer, quando decidir mesmo, coloca essa idéia na cabeça e repete: namiohoroguenkionamiohoroguenkionamio... Pode acreditar que acontece.
- Quem te ensinou isso?
- A mulher do namiohoroguenkio.
- Dãrrrr.
- Ah, uma mulher aí que foi fazer um projeto lá no morro.
- Sei. E dá certo mesmo? Você já testou?
- Porra! Você acha que eu vou acreditar nessas coisas?
- Estimulante.
- Olha, eu sei que para você vai dar certo, porque você acredita, não é?
- É.
- Então pronto. Vou entrar nessa rua aqui, é nela que a kombi passa.
- Beleza. Boa sorte aí.
- Para você também. A gente se vê.


(Texto escrito e publicado em 12.08.08 no fragMIMtos)

Reiniciar a máquina

Depois de um ano brincando de ser blogueira, com dois filhos queridos que vinham crescendo sem orientação, resolvi dar um tempo e organizar a casa.
O tempo acabou, as idéias ficaram claras e chegou a hora de colocar outros meninos no mundo.

Sim, sim, é tudo para mim, para minha cabeça, para os meus desejos e meus objetivos. Porque uma coisa que aprendi nesse ano de bloguisse é que a gente entra na rede e publica para nós mesmos, para expor, para soltar, para jogar algo no mundo, para participar.
Sim, sim, é tudo para os dois ou três que visitarão meus endereços, para fazer contato, para conhecer pessoas, para ouvir respostas. Porque outra coisa que percebi nesse tempo foi a existência de muita gente interessante no mundo, muita gente interessada em dividir suas idéias, muita gente com quem eu quero conversar, ainda que por intermédio de uma tela de computador.

Ai, ai. Parece que eu estava mesmo com saudade de escrever, né? Então, tá, chega. Quando estiver de bobeira, escolhe um aí e clica:

Eu falo com estranhos: uma coisa meio blog, meio twitter, totalmente verborragia. Em outras palavras, o espaço para expor a tempestade de idéias que acontece em minha mente e saciar o vício que adquiri ao conhecer o prazer de postar.
Colecionadora de Alteregos: ficção, poesia e história, amados temas que vinham se perdendo em meio ao turbilhão de pensamentos sempre com pressa de se expressar.
Tutubarão: clipping de notícias inúteis, porque tenho a impressão que o útil, o sério e o chato caminham lado a lado por aí.
P de Prediletos: textos e fotos que, modéstia a parte, curti fazer e amei o resultado. É, isso, um portifólio on-line.

Muito? Tem mais:
Innabsbstyle: se você acha que Brasília não tem moda, visita o blog da Ludmila e aproveita para dar uma olhada nas minhas raras contribuições por lá.

É, por hora é só. Até mais.